quinta-feira, dezembro 11, 2008

Charneca em flor.

Teus olhos, cisnes puros!
Nascente de águas escuras,
Turmalina negra,
Síndrome da minha convalescência.
Se te vejo, e teu olhar fito,
É a sensação de estar rente a um despenhadeiro.

Já nem sei mais lidar com o ar rarefeito,
E o corpo trêmulo, meu Deus, meu Deus,
O que me toma por prisioneiro?
Como apenas uma mulher é capaz de tal feito?
Teus olhos, arma lenta e tênue... cegam-me os meus.

Mas teus olhos esgueiram-se de mim,
Inocente dos meus... – ausentes da liberdade!
Enquanto os meus, num desejo mágico e fremente,
Ama-te amiúde num suplício de tântalo.

Teus olhos, pequeno ser angelical,
Flor de perfume quente, marcante,
Esbarram-se nos meus,
Num sorriso terno e simpático.

Ei-lo assim:
O qual não quero,
No qual eu sofro,
Pelo qual eu ardo,
Pelo tal eu morro.

Teus olhos são uma noite de verão sem vento,
A qual me dopa.
Teus olhos enfeitiçam-me feito âmbar vespertino,
E vem do teu corpo uma graça pousada,
Uma ópera para o deleite da minh’alma.

A vociferação dos perfeitos ventos sulinos,
Que se transformam em odes e cantatas,
No emaranhado encontro com os teus cabelos,
Em sincronia com a tua boca repleta de orvalho.

Meu deleite mais poético:
Teus olhos.
E se assim os teus encantos fossem meus,
É doído dizer que já não mais eu te queria,
Porque assim, em meu ser tudo estaria terminado,
Seria enfim, o acúmulo da fé dos desesperançados.

Miras, eu sei,
Quando assim o faz por curiosidade,
Absorta no desacaso, ao tempo, ao teu vagar,
Ou se de vontade que não se alimenta,
Passas lento, beleza a afogar meus olhos,
Teus olhos, duas portas de um santo templo.

Miras, eu sei,
E nestes lampejos entre trocas de nossos olhares,
Minha vontade do que não se pode ter sido,
Alimenta-se nos faróis do teu corpo.

O olhar um no outro:
Um, o amor antes de ser feto, morto,
Peças do atraso.
O outro, musa graciosa, uma sensível nuvem,
Perfeição rarefeita de traços inumeráveis,
Linda, caminhando por sobre os astros.

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quinta-feira, outubro 23, 2008

Jogo de damas***

Foi nas espumas do mar que tu nasceste,
Leve, instantânea rosa branca em harmonia
Com os tempos, com os ventos, as sinagogas.
Sóis virgens nascem dos teus seios,

Os horizontes te contemplam,
Os dias se atrasam, as noites se esbaldam,
Semideuses em teu nome pregam palavras de desejo;
Por ti, deusa silvestre, sorte da minha vida,
Espectros desejam viver novamente.

Em tu impera a perfeição,
Como contornos esculpidos em mármore fino.
Teu corpo é denso e misterioso labirinto de Creta,
Onde Teseu enfeitiçado, a eternidade desejaria ficar,
Escravo da tua tez feiticeira, teu brilho inebriante.

Porque é uma tentação a cascata de estrelas
Que caem dos teus cabelos atemporais,
E a lua ao longe enciumada ao ver-te passar,
Mulher das estrelas, corpo lânguido ao vento,
Trava batalhas de brilhos incomparáveis,
por entre as cordilheiras das curvas do teu corpo.

Eu te assisto e te admiro daqui, ninfa das primaveras,
Como o marinheiro em deriva a fitar o lampejo do farol,
Imerso num mar negro, nebuloso e revoluto.
Sereia contra o vento,

É dos teus cantos que sai
O frescor das manhãs de inverno,
E o rubor que da tua linda face me atropela,
Roubaste sei que das maçãs serranas.

És o anjo bendito que em poder numa das mãos tem o meu julgo,
E noutra, espada flamejante que cravaste em meu peito,
Cego de amor sou prisioneiro dos teus astutos redemoinhos,
Vivo a roubar tua imagem para os meus olhos alimentar.

Eu renasço para ti, sempre, dia-a-dia,
Beijo em sonho a tua boca, e assim me alimento,
No frescor do teu suspiro recomponho-me,
E nas veredas da tua existência ressuscito.

Como me desfazer de ti, se minhas forças galgam
Caminhos que me levam a lampejos de esperanças,
Trilhar contigo inacabáveis desejos de amores,
Em gondoleiros que se põem em tardes despertas.

Eu quero, necessito,
Na sombra da tua árvore descansar,
E nas ventanias intransponíveis do teu andar,
Que me traspassa sem dó nem piedade,
Morrer, ...a alma presa,
Feito barco que quer naufragar.

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sexta-feira, setembro 12, 2008

Juras Secretas**

Te amo tão secretamente,
Que até esqueço que por ti é que respiro,
E quando te vejo, pensar que havia obtido a cura,
Vem aquele súbito sufocamento,
Relembro o teu nome,
Que na estante passado esqueço de deixar.

Não posso calar-me. Não posso.
Mas também não posso gritar-te,
Mas tu, em nove vezes milhões de astros,
Morada fincaste em meu peito.

É estranho o gozo da alegria de sentir a solidão,
Mas é quando ela está aqui que estás comigo,
Uma porta de igreja abre-se ante aos serenos romeiros,
Que espreitam a hora de orar a prece que de ti só eu sei.

Sê,
Sê as minhas jornadas inacabadas para tantos e quantos dias...
Sê, então se precisar;
Sê,
Sê as estrelas que da noite fogem para na relva encantada brincar,
Sê, sê para me encantar;
Sê,
Sê o acalanto que procuro no peito de mão aberta,
Sê, sê para me confortar;
Sê,
Sê a minha razão irresponsável e desmedida,
Sê, sê para eu não mais chorar.

Que não sejas esta flor que na semente permanece,
E secretamente angustia e devasta o meu peito,
Reluzindo feito topázio ao fogo,
E quando te sinto ao longe,
Secretamente, meus, os olhos no teu clareio se encandeiam,

São como flechas de bronze incandescentes,
De ti a cravar-me o peito, numa dor prazerosa e necessária,
Escorrendo filigranas de desejo por entre os poros.
Ao longe, perto estás; Perto, longe deverias estar.

Sinto ódio e inveja daqueles que de ti presente dais um sorriso,
E eu que tanto te amo, passo.
Te amo tanto, secretamente, e não posso dizê-lo,
Era trair a lua com a noite,
Em nada corresponderias a este amor que nutro secretamente,
Eu sei, eu sei...
Fadado ao desespero da incompreensão.

Aprendi a viver sem ti, somente a te espreitar,
Nas esquinas roubar teu aroma,
Rosa silvestre. Balbuciando este amor secreto,
Te procuro por entre dimensões alheias,
Te amo secretamente, sem orgulho, devotamente,
Te amo desta maneira porque não tenho outro jeito de amar.

E meu consolo é de mesmo em sombras poder contar teus passos,
Te olhar calado, como se contempla o mar,
Te testemunhar como quem espera o nascer do sol,
Te tocar por entre as flores da serra florida,
E de vez em quando expurgar amor estranho de mim,
Colaborando com um entardecer doloso e enrubescido.

Por te amar tão secretamente,
Morro gota a gota por não encontrar teus lábios,
Transformo-me em rio de inverso curso,
Permaneço-me sol de jardim sem flores,
Sem ti, sou mãos tristes e dependuradas.

Por teu tão longe existir sem mim,
Deusa da minha alma, Perséfone romã,
Por dentro grito teu nome feito tifo sem cessar.
Por te amar tão secretamente,
Queria este poema a ti declarar.

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